Ele também acha que não é simples o Brasil sair do Mercosul, pelos compromissos que assinou desde a fundação do bloco, em 19991. Ele interpreta que a intenção de Guedes poderia ser “flexibilizar” o esquema tarifário em vigor hoje no bloco.
As declarações de que a Argentina e o Mercosul não são prioridade estiveram entre as principais noticias da Argentina, do Uruguai e do Paraguai.
“O Mercosul não será prioridade para governo Bolsonaro”, publicou o La Nación, de Buenos Aires.
“Será que Bolsonaro ratificará o que disse Guedes?”, perguntou um comunicador da rádio Ciudad, da capital argentina.
Entrevistado pela rádio La Red, de Buenos Aires, o embaixador argentino no Brasil, Carlos Magariños, disse que “não imagino o fim do Mercosul com a chegada de Bolsonaro, mas sabemos que algumas coisas serão avaliadas.”.
No Uruguai, a rádio Oriental, de Montevidéu, entrevistou especialistas no país que analisaram a afirmação do futuro ministro, chamado por Bolsonaro de “posto Ipiranga” – ou seja, alguém a quem recorreria com frequência. “Sempre juntos. Em busca da ordem e do progresso”, escreveu Bolsonaro no Twitter durante a campanha eleitoral, com uma foto ao lado de Guedes.
“Quando ele (Guedes) diz que o Brasil sairá ao mundo, então acabou esta relação econômica que temos (atualmente) de negociar em conjunto. E deveremos analisar como vamos administrar isso, porque temos muitos temas juntos com a infraestrutura conjunta planejada (para o bloco)”, disse o ex-embaixador uruguaio Sergio Abreu à rádio uruguaia.
Numa entrevista coletiva nesta segunda-feira na Presidência do Uruguai, quando perguntado sobre as afirmações do futuro ministro brasileiro, o presidente Tabaré Vázquez respondeu: “A experiência me ensinou que é oportuno esperar e ver que atitude terá o novo governo em relação ao Mercosul. Não arrisco fazer futurismo com esse assunto porque é muito importante para todos os países que integramos o Mercosul.”
O próprio Tabaré já tinha sugerido, em seu governo anterior (2005-2010), que o bloco fosse “flexibilizado” para que fossem permitidos acordos comerciais bilaterais. E voltou a falar no assunto em outras ocasiões.
Na primeira vez em que falou em “flexibilização”, foi criticado por outros membros. Recentemente, a palavra “flexibilização” do Mercosul teria feito parte de conversas entre os presidentes Tabaré e Mauricio Macri, da Argentina, segundo a imprensa uruguaia.
“Por isso, acho que a fala de Guedes não causou surpresas aqui no Uruguai. Já se esperava”, disse um editor do El País, de Montevidéu.
No Paraguai, a reação foi menos evidente, sem declarações públicas das autoridades locais. Procurada, a assessoria de imprensa da Presidência não respondeu aos contatos feitos pela BBC News Brasil.
Negociadores brasileiros que falaram sob a condição do anonimato disseram que é preciso esperar para ver o que dirá “o chefe do Guedes”, pois Bolsonaro já amenizou declarações feitas pelo economista anteriormente, por exemplo na questão do que poderá ser privatizado no próximo governo.
Falando do Rio de Janeiro, o ex-embaixador brasileiro José Alfredo Graça Lima, do Centro Brasileiro de Relaçōes Internacionais (CEBRI), acha que pode ter ocorrido uma confusão quando Guedes citou a Bolívia e Venezuela ao falar sobre o Mercosul.
Os dois países não integram o bloco, mas sim a Unasul (União de Nações Sul-Americanas). Mas Graça Lima concordou com o que o futuro ministro disse sobre a “ideologia” na política externa, o que na sua visão ocorreu durante um período do governo Lula.
“Acho que aquela ideologia não deu resultados para o Brasil. Mas devemos reconhecer que o Mercosul é principalmente um sucesso político, porém um fracasso comercial”, afirmou ele, que foi negociador do Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC).
O “sucesso político” é referência ao histórico do bloco que surgiu a partir de um acordo inicial entre os governos de José Sarney e do argentino Raúl Alfonsín (1927-2009), ainda nos anos 1980, quando os dois países desconfiavam um do outro principalmente por seus projetos na área nuclear e quando acabavam de sair de ditaduras militares.
Segundo historiadores, o entendimento entre os dois governos acabou virando a semente para a criação do Mercosul.
Na opinião de Graça Lima, porém, o Mercosul “virou uma camisa de força” na área comercial, e ele acredita que o sistema de tarifas comuns deveria ser flexibilizado.
“Se for feita uma reforma tarifária, o Brasil não precisará sair do bloco. Mas hoje a união aduaneira deixa o bloco engessado”, afirmou. Para ele, hoje, o bloco tem efeitos limitados para a área comercial e que prejudicam o Brasil.