O desembargador Orlando Perri, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, anunciou a transferência do cabo da PM Gerson Correa Júnior, que é suspeito de operar um esquema de grampos no Estado, para um presídio federal de segurança máxima. Em princípio, o destino deve ser Campo Grande (MS).

Na terça-feira (25), o desembargador já havia determinado que Correa deixasse o quartel da Rotam (Rondas Ostensivas Tático-Móvel) e fosse levado para o Centro de Custódia de Cuiabá (CCC).

Ao MidiaNews, Perri afirmou que já oficializou à unidade federal de Mato Grosso Sul e aguarda disponibilidade de vaga na prisão.

“Por enquanto, ele (o cabo) ficará no CCC. Oficiei pedindo vaga no presídio federal de Campo Grande. Vou aguardar”, afirmou.

Por enquanto, ele (o cabo) ficará no CCC. Oficiei pedindo vaga no presídio federal de Campo Grande. Vou aguardar

Questionado se o PM corre risco aqui ou representa algum tipo de risco, Perri preferiu não comentar.

A reportagem levantou que a transferência tem o objetivo e evitar que o cabo continue tendo privilégios na Rotam, conforme detectado em vistoria.

O cabo Correa foi preso no dia 23 de maio, com o ex-comandante da PM, coronel Zaqueu Barbosa.

Um mês depois, o secretário afastado da Casa Militar do Estado, coronel PM Evandro Lesco; o secretário-adjunto afastado da pasta, coronel PM Ronelson Jorge de Barros; o tenente-coronel Januário Batista e o cabo Euclides Torezan também foram detidos, por suspeita de participação no esquema. Os dois últimos foram soltos.

 

“Regalias”

Na terça-feira (25),  o MidiaNews  divulgou o relatório de uma vistoria realizada por dois juízes, a partir da suspeita de que o cabo e outros militares presos por envolvimento no caso teriam regalias nas unidades prisionais militares.

A vistoria foi realizada pelos juízes Bruno D’Oliveira Marques, da 11ª Vara Criminal Especializada da Justiça Militar da Capital, e Geraldo Fidélis, da 2ª Vara Criminal da Capital.

A informação inicial era de que o cabo teria saído da Rotam para ir até à Boate Crystal, uma casa noturna em Cuiabá frequentada por garotas de programa.

O relatório dos dois magistrados não confirma a saída – diz apenas que a denúncia ainda está sendo apurada. Correa Júnior também teria recebido permissão para tomar cerveja fora do quartel.

 

Reprodução

Cabo Gerson

O cabo Gerson Correa Júnior, que pode ser transferido para Campo Grande

A vistoria foi realizada no dia 5 deste mês, nas seguintes unidades: Esfap (Escola Superior de Formação e Aperfeiçoamento de Praças), Academia da Polícia Militar Costa Verde, Bope (Batalhão de Operações Especiais), 3º Batalhão da Polícia Militar, 4º Batalhão (Várzea Grande) e Rotam.

Nessas unidades, estavam presos – no dia da vistoria – os coronéis Zaqueu Barbosa, Evandro Lesco, Ronelson Barros, o tenente-coronel Januário Antônio Edwiges Batista (já em liberdade) e os cabos Euclides Torezan (também em liberdade) e Gérson Correa Júnior.

Contra o cabo também pesa a acusação de que, mesmo detido, ele teria trocado mensagens de celular com um amigo de infância, de quem cobrou uma dívida.

Ainda nas trocas de mensagem com o amigo, o policial revelou a intenção de “arregaçar de qualquer jeito” o promotor Mauro Zaque, que denunciou o esquema de escutas ilegais em Mato Grosso.

A informação consta no depoimento dado pelo amigo, cujo nome não foi revelado, prestado no dia 19 de maio.

O homem, que resolveu depor ao descobrir que ele e a esposa foram alvos dos grampos ilegais, anexou cópias das mensagens nos autos do inquérito.

Escutas ilegais

A denúncia sobre a rede de grampos foi feita no início deste ano, ao Ministério Público Federal (MPF), pelo promotor Mauro Zaque.

O ex-secretário de Segurança disse que recebeu uma denúncia anônima, com documentos, que evidenciavam a prática ilegal.

Segundo ele, a denúncia foi levada ao conhecimento do governador Pedro Taques em setembro de 2015. O governador, por sua vez, negou ter conhecimento do caso e entrou com um processo contra Zaque.

O esquema funcionaria por meio da chamada “barriga de aluguel”, quando números de telefones de cidadãos comuns, sem conexão com uma investigação, são inseridos em um pedido de quebra de sigilo telefônico à Justiça.

No caso da denúncia, teria sido usado um inquérito que investigava uma quadrilha de traficantes de cocaína.

Ao pedir a quebra dos sigilos dos telefones dos supostos membros da quadrilha, teriam sido inseridos, ilegalmente, na lista encaminhada à Justiça, os telefones que interessariam ao grupo monitorar.

A decisão que autorizou as escutas contra a quadrilha partiu da Comarca de Cáceres (225 km a Oeste de Cuiabá), na fronteira do Brasil com a Bolívia.

Entre os grampeados estariam a deputada Janaina Riva (PMDB); o advogado José do Patrocínio; o desembargador aposentado José Ferreira Leite; os médicos Sérgio Dezanetti, Luciano Florisbelo da Silva, Paullineli Fraga Martins, Hélio Ferreira de Lima Junior e Hugo Miguel Viegas Coelho.

O inquérito sobre o caso está na Procuradoria Geral da República, sob comando do procurador Rodrigo Janot.