Em depoimento à Corregedoria da Polícia Militar, o ex-comandante da corporação, coronel PM Zaqueu Barbosa, afirmou que nunca pediu para a instituição grampear jornalistas, políticos, médicos e servidores públicos.

 

Ele é acusado de integrar suposto esquema de escutas ilegais no âmbito da PM, que teria a conivência do Palácio Paiaguás.

 

Zaqueu, que está preso desde o dia 23 de maio, foi ouvido na tarde de terça-feira (28) pelo coronel Jorge Catarino, que preside o inquérito militar sobre o caso

 

De acordo com o advogado Flavio Ferreira, que faz a defesa do ex-comandante, seu cliente só ficou sabendo das supostas escutas ilegais após a veiculação de uma matéria sobre o caso no programa Fantástico, da TV Globo.

 

Conforme o advogado, Zaqueu suspeita que os números podem ter sido inseridos numa suposta investigação do Núcleo de Inteligência da PM sobre tráfico de drogas envolvendo policiais.

 

Ele afirmou que quando era comandante-geral da PM pediu autorização da Justiça com base em um relatório do setor de inteligência para que fosse interceptado o telefone de militares que estariam envolvidos com tráfico de drogas. Se tinha barriga de aluguel, o Zaqueu não tinha como saber

“Ele afirmou que quando era comandante-geral da PM pediu autorização da Justiça com base em um relatório do setor de inteligência para que fosse interceptado o telefone de militares que estariam envolvidos com tráfico de drogas. Se tinha barriga de aluguel, o Zaqueu não tinha como saber. Ele  unca pediu para grampear A ou B”, disse.

 

“Só para explicar melhor: sempre quando a PM pede a autorização para Justiça para interceptar alguém é com base em um relatório do setor de inteligência, que faz todo o trabalho de investigação e apresenta ao chefe do setor a possibilidade de esse ou aquele militar estar envolvido em algum crime. Esse relatório é encaminhado ao comandante-geral, que faz o pedido para a Justiça”, afirmou.

 

Segundo o advogado, Zaqueu respondeu ter confiado no relatório.

 

“Alguém aproveitou essa investigação e inseriu o número dessas pessoas, só que não sabemos quem é esse alguém. Isso está sendo investigado, até agora só tem suspeita, só vamos saber após a conclusão do inquérito”, disse.

 

Flavio Ferreira relatou que a estratégia da defesa agora é aguardar o julgamento do mérito do habeas corpus impetrado em favor de Zaqueu.

 

“Nós já entramos com habeas corpus e a liminar foi negada. Agora vai ser julgado o mérito, mas o mérito só será julgado quando o inquérito militar for encerrado, estamos aguardando”, disse.

 

“Mas ele está bem, tranquilo, claro que preso ninguém fica 100% feliz, mas ele está com o coração tranquilo, porque tudo que ele falou é verdade”, pontuou.

 

Prisões

 

Além de Zaqueu, também foi preso no dia 23 de maio por suposto envolvimento na escuta o cabo Gerson Ferreira Correia Júnior.

 

Na última sexta-feira (23), o desembargador Orlando Perri, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, decretou a prisão do chefe da Casa Militar do Estado, coronel PM Evandro Lesco, do tenente-coronel Januário Batista, do coronel Ronelson Barros e do cabo Euclides Torezan por também terem participado do suposto esquema.

 

Escutas ilegais

 

A denúncia sobre a rede de grampos foi feita no início deste ano, ao Ministério Público Federal (MPF), pelo promotor de Justiça Mauro Zaque, ex-secretário de Estado de Segurança Pública.

 

Zaque disse que recebeu uma denúncia anônima, com documentos, que evidenciavam a prática ilegal.

 

Segundo ele, a denúncia foi levada ao conhecimento do governador Pedro Taques (PSDB) em setembro de 2015. O governador, por sua vez, negou ter conhecimento do caso e entrou com um processo contra Zaque.

 

O esquema funcionaria por meio da chamada “barriga de aluguel”, quando números de telefones de cidadãos comuns, sem conexão com uma investigação, são inseridos em um pedido de quebra de sigilo telefônico à Justiça.

 

No caso da denúncia, teria sido usado um inquérito que investigava uma quadrilha de traficantes de cocaína.

 

Ao pedir a quebra dos telefones dos supostos membros da quadrilha, teriam sido inseridos, ilegalmente, na lista encaminhada à Justiça, os telefones que interessariam ao grupo monitorar.

 

A decisão que autorizou as escutas contra a quadrilha seria da Comarca de Cáceres, na fronteira do Brasil com a Bolívia.

 

Entre os grampeados estariam a deputada Janaina Riva (PMDB); o advogado José do Patrocínio; o desembargador aposentado José Ferreira Leite; os médicos Sergio Dezanetti, Luciano Florisbelo da Silva, Paullineli Fraga Martins, Helio Ferreira de Lima Junior e Hugo Miguel Viegas Coelho.

 

O inquérito sobre o caso está na Procuradoria Geral da República, sob comando do procurador Rodrigo Janot.

 

Fonte: http://www.midianews.com.br/cotidiano