Militares acusados pelo esquema de grampos pediram novo interrogatório na reta final de julgamento

(Por Camilla Zeni, o livre)

Era 13h e a sala de audiências da 11ª Vara Criminal de Cuiabá já começava a receber militares, advogados e jornalistas. Nesta terça-feira (16), o juiz Marcos Faleiros reinterroga três militares acusados de participar do esquema de escutas ilegais instalado em Mato Grosso. O caso ficou conhecido como Grampolândia Pantaneira.

Às 13h30, horário marcado para a audiência, já estavam presentes o cabo da Polícia Militar Gerson Luiz Ferreira Correia Júnior, e os coronéis Zaqueu Barbosa e Evandro Lesco.

Também acompanham os depoimentos os advogados Plínio Carneiro Costa e Emmanuel Figueiredo, que fazem a defesa do ex-governador Pedro Taques.

A audiência teve início já por volta das 14h30, com a presença do juiz. O coronel Zaqueu foi o primeiro a se apresentar ao Conselho de Sentença, seguido do coronel Evandro Lesco e do cabo Gerson.

A defesa do cabo Gerson pediu à Justiça para que o cliente fosse o primeiro a ser ouvido, considerando o vazamento de uma petição na qual Gerson narra todos os fatos a serem esclarecidos. O pedido foi aceito pelo juiz, após manifestação favorável do Ministério Público do Estado, mas indeferido por maioria do Conselho.

Para os juízes militares, é necessário seguir o ordenamento regulamentado, ouvindo aos réus com maior patente primeiro. Dessa forma, Zaqueu foi o primeiro a falar.

Na época do escândalo, Zaqueu era comandante da Polícia Militar.

Depoimento limitado

O promotor de Justiça Vinícius Gahyva, representante do Ministério Público do Estado (MPE), pediu, em sua manifestação antes do início do interrogatório, que os interrogados apenas se atenham ao que já consta nos autos.

Os advogados de defesa dos coronéis Zaqueu Barbosa e Evandro Lesco se manifestaram de forma contrária ao pedido do MPE.

“Esta é a primeira vez que eu vejo o Ministério Público pedir para o interrogado não falar tudo o que sabe”, ironizou o advogado Stalin Paniago, que defende o coronel Evandro Lesco.

O pedido do Ministério Público também foi negado pelo juiz Marcos Faleiros, que destacou que os acusados poderão abordar qualquer fato que acreditem que possa trazer benefícios a eles durante o julgamento.

Grampolândia

O caso dos grampos ilegais veio à tona com a denúncia do promotor Mauro Zaque, que afirmou ter recebido uma denúncia anônima e alertado o então governador Pedro Taques por diversas vezes, desde outubro de 2015.

Segundo Zaque, em uma das vezes, chegou a usar apresentação em PowerPoint. Na época, Taques admitiu ter sido avisado, mas disse que considerou as denúncias como “fofoca”.

O promotor denunciou o caso à Procuradoria Geral da República (PGR) em janeiro de 2017. A informação chegou à imprensa por meio do programa Fantástico, da Rede Globo, que trouxe luz ao caso.

Revelações

Na última semana, o esquema da Grampolândia voltou a ser assunto na imprensa, depois que foi motivo de debates entre membros do Ministério Público, Poder Judiciário e Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Primeiro foi o desembargador Orlando Perri, do TJMT, que, ao negar pedido do MP para destrinchar três procedimentos investigatórios criminais (PICs), teria se “excedido na linguagem“, na visão do promotor de Justiça, Roberto Turin, que preside a Associação Mato-grossense do Ministério Público (AMMP).

Depois, foi o presidente da OAB-MT, Leonardo Campos, que em entrevista à rádio Capital FM afirmou que o Ministério Público tratava o caso com lentidão e tinha a intenção de afastar a Ordem das investigações. Isso porque a OAB-MT foi responsável por uma notícia-crime sobre suposta participação de promotores no esquema dos grampos.

Leonardo Campos também foi quem trouxe à tona a tentativa malsucedida de delação premiada firmada pelo cabo PM Gerson Luiz Correia Junior. Depois, a TVCA revelou uma também tentativa malsucedida por parte do coronel Zaqueu Barbosa.

 

 

Fonte: https://olivre.com.br