As interceptações telefônicas ilegais feitas por membros da Polícia Militar eram desviadas para terminais que seriam criados exclusivamente para a prática criminosa.

 

Os números que recebiam os grampos irregulares teriam sido criados em nome de pessoas que sequer sabiam que seus dados eram utilizados no esquema criminoso.

 

As informações constam em relatório da operadora Claro, referente a solicitação feita no âmbito das apurações da PM.

 

O pedido de relatório foi feito à operadora pelo coronel Jorge Catarino de Morais Ribeiro, responsável por conduzir o Inquérito Policial Militar (IPM) sobre os grampos ilegais em Mato Grosso. Conforme as apurações feitas no IPM, o grupo criminoso adquiria os chips e registrava os itens em nome de mato-grossenses que sequer sabiam que suas informações estavam sendo utilizadas no esquema.

 

Diversas pessoas foram alvos dos cadastros ilegais e tiveram seus dados, como nome, endereço e CPF, inseridos no cadastro de chips que eram utilizados para receber as informações obtidas nos grampos clandestinos. A maioria dos números foi registrada em julho de 2014, período em que teriam sido iniciadas as interceptações ilegais.

 

Foram inseridos terminais de municípios de Mato Grosso, entre eles Cuiabá, Primavera do Leste, Rondonópolis e Várzea Grande. Também foram registrados números do Paraná e do Distrito Federal.

 

As investigações da Polícia Militar revelaram que depois que os números eram criados, com os dados irregulares, o grupo de militares que atuava nas interceptações ilegais cadastrava os terminais no sistema em que eram realizadas as escutas ilegais. No início do esquema, os terminais eram cadastrados na plataforma Wytron, primeiro meio utilizado para as interceptações clandestinas.

 

Posteriormente, passaram a ser cadastrados no sistema Sentinela, que também foi usado para os grampos clandestinos. Logo que os números eram registrados, eles passavam a receber as interceptações telefônicas ilegais e as conversas eram registradas no equipamento utilizado para a prática ilegal.

 

Os terminais eram cancelados conforme o interesse do grupo criminoso. Houve números que foram cancelados meses depois do cadastro, ainda em 2014, e outros que somente foram invalidados em maio deste ano.

 

Ainda não há uma estimativa de quantas pessoas tiveram informações inseridas em chips autenticados de modo irregular. Entre os nomes das pessoas que foram colocadas irregularmente como titulares do chip, estão pessoas com passagem pela polícia, alvos de ação judicial e pessoas que não têm antecedentes criminais.

 

As apurações iniciais revelam que os números teriam sido escolhidos de modo aleatório. Entre os cadastros ilegais, chama a atenção o nome de H.D.A., que é acusado de liderar uma quadrilha de roubos e falsificação de veículos no Estado, que teria praticado mais de 200 roubos em Mato Grosso.

 

Outras pessoas denunciadas na mesma ação também tiveram chips cadastrados em seu nome. Outro dado curioso é de que um chip em nome de D.V.P foi cadastrado em setembro de 2014 e cancelado em julho de 2016. Porém, ele foi assassinado em junho de 2015 na cidade de Primavera do Leste.

 

Na decisão em que determinou a prisão do ex-secretário da Casa Civil, Paulo Taques, cumprida na última sexta-feira, o desembargador Orlando Perri mencionou sobre os chips da operadora Claro. Ele citou este caso para destacar a suspeita de que o esquema ainda pode estar funcionando, mesmo a a prisão de vários suspeitos de operá-lo.

 

O desembargador ressaltou que vários números de celulares utilizados como “desvio” das ligações telefônicas ilegalmente interceptadas, funcionaram normalmente, mesmo depois da denúncia apresentada pelo então Secretário de Segurança Pública de Mato Grosso, Mauro Zaque de Jesus.vA decisão narra que a maioria dos terminais, da operadora Claro, chegou a ser cancelado no ano de 2016.

 

Porém, um determinado terminal utilizado como desvio das escutas telefônicas encontrava-se ativo até maio desse ano. Para Perri essa informação é um “fortíssimo indício de que o malsinado grupo criminoso estava [ou ainda está] em plena atuação”.

 

O esquema de arapongagem gerou repercussão nacional e foi alvo de reportagem do programa “Fantástico”, da Rede Globo. Seis militares foram presos, por suspeita de participação no esquema criminoso. Foram presos os coronéis Evandro Lesco, Zaqueu Barbosa e Ronelson Barros, o tenente Januário Batista e os cabos Euclides Torezan e Gerson Luiz Ferreira. Torezan e Batista foram colocados em liberdade.

 

Dos presos, cinco militares, com exceção de Torezan, foram denunciados pelo Ministério Público Estadual pelos crimes de ação militar ilícita, falsificação de documento, falsidade ideológica e prevaricação. Na última sexta-feira, foi determinada a prisão do ex-secretário da Casa Civil, Paulo Taques. Além de ser apontado como membro atuante nas fraudes, já que teria determinado grampear sua ex-amante por mais de um ano, o advogado é suspeito de estar obstruindo as investigações com objetivo de destruir provas.

Veja o relatório:

 

Fonte: http://www.midianews.com.br