A vitória de Biden oferece uma nova oportunidade aos moderados do Ocidente

O presidente eleito dos EUA, Joe Biden, com a vice-presidenta eleita, Kamala Harris, numa imagem de agosto passado.

O presidente eleito dos EUA, Joe Biden, com a vice-presidenta eleita, Kamala Harris, numa imagem de agosto passado.

Os partidários das democracias liberais, dos valores da tolerância, do progresso social e dos direitos individuais, das sociedades abertas e do respeito às minorias, do conhecimento científico e do amor à cultura podem comemorar – nos Estados Unidos ou onde estiverem – a derrota de uma das grandes ameaças às suas ideias desde que se consolidaram no Ocidente como modelo de referência após o fim da Segunda Guerra Mundial. A vitória do candidato democrata, Joe Biden, nas eleições presidenciais dos EUA, a maior potência mundial, freia a passagem ao nacional-populismo. Biden não é um candidato perfeito e inspirador. Mas representa o regresso à Casa Branca da moderação, do respeito aos princípios e às instituições democráticas, assim como a volta ao diálogo e ao multilateralismo no cenário internacional. Seu sucesso é uma mudança de era para seu país e para o Ocidente.

O caminho de Biden – ex-vice-presidente de Barack Obama – será tortuoso, repleto de perigos, com um Donald Trump que ameaça não reconhecer o resultado e insiste em ardis com gosto antidemocrático, ameaças de recontagem dos votos e múltiplas ações judiciais. Tudo isso tendo como pano de fundo uma sociedade tensa e dividida. Nessas horas momentosas, a atitude do presidente em fim de mandato mostra traços perigosos para a estabilidade do país. O candidato perdedor tem direito de apresentar recursos judiciais contra o escrutínio, mas não de minar a fé na democracia sem argumentos. Várias redes de TV chegaram esta semana a interromper a difusão de um discurso repleto de mentiras, que tentava solapar sem nenhuma prova a confiança dos cidadãos nas instituições – um gesto que ilustra a gravidade da insídia trumpista. Desde o primeiro momento, Trump não hesitou em confundir o processo eleitoral e sobrepor seus interesses partidário aos da nação. De modo contrário e acertado, Biden se referiu desde a noite eleitoral à necessidade de unir um país perigosamente fissurado, entre outras coisas, por conflitos raciais. É uma passagem lógica na direção correta para enfrentar o mais urgente desafio da nova era: governar para uma nação partida ao meio.

Para isso, Biden contará com a ajuda de sua colega de chapa, Kamala Harris, uma mulher negra, pragmática, de perfil moderado, que foi procuradora-geral da Califórnia, que se define como “solucionadora de problemas” e que será a primeira vice-presidenta do país: outra conquista para comemorar. As linhas de divisão raciais, territoriais e sociais que continuam existindo, juntamente com a insatisfação de fundo que pulsa no grande respaldo obtido por Trump, exigirá de Biden e Harris não apenas políticas ativas destinadas a curar as feridas, mas uma retórica conciliadora, radicalmente oposta à de quem durante anos atiçou o fogo da ira. É preciso ser consciente de que a derrota não fará desaparecer o trumpismo da noite para o dia. Nessa tarefa, é necessário que o Partido Republicano se desvincule da linha radical do magnata e contribua para a árdua tarefa de apaziguar os ânimos de uma sociedade fraturada, recuperando os valores que o fizeram grande no passado. É possível que os republicanos conservem sua maioria no Senado, e a Suprema Corte tem uma formação com forte maioria conservadora, o que torna especialmente essencial um espírito colaborativo.

A Administração de Biden terá mais facilidade em mudar o rumo de uma potência que no plano internacional deu as costas aos seus aliados tradicionais, enquanto seu até agora líder estabelecia laços pessoais com autocratas como Putin, Erdogan e Kim Jong-un. Cabe esperar uma mudança significativa com a volta ao multilateralismo e o apoio às instituições internacionais, dotando também de um renovado vigor pactos como o Acordo de Paris pela luta contra a mudança climática e o pacto nuclear com o Irã. Nesse caminho, a União Europeia terá na Casa Branca de Biden o melhor aliado para enfrentar questões essenciais da agenda global. A Europa voltará a contar com um parceiro confiável e alicerçado em valores compartilhados. Ainda assim, fará bem em não superestimar suas expectativas e em reforçar sua autonomia estratégica. Como ficou claro nos últimos quatro anos, não se pode tomar nada como certo.

Em qualquer caso, a vitória de Biden representa uma nova oportunidade para que os moderados do Ocidente – progressistas ou conservadores – ofereçam soluções eficazes aos legítimos desejos e preocupações de tantos cidadãos que se decepcionaram com a gestão de seus dirigentes nas últimas décadas e decidiram optar por propostas radicais, nacionalistas e populistas. Muitos se sentiram abandonados por uma globalização que tirou centenas de milhões de pessoas da pobreza em outras partes do mundo, mas que causou graves danos no Ocidente. Esse fenômeno alimentou uma desilusão e uma perda de fé que minam nossas democracias. Daí brotaram o Brexit, a força de Matteo Salvini e outras experiências políticas radicais. Hoje começa uma nova era, com uma mudança profunda na maior potência global. Não deve ser desperdiçada.

 

 

 

fonte: https://brasil.elpais.com/internacional/2020-11-08/mudanca-de-era.html