A última reportagem da série especial do JN sobre o PIX mostra que a inteligência artificial do sistema vai ser usada a favor da segurança.


PIX: os cuidados com a segurança do novo sistema de pagamento instantâneo criado pelo BC

PIX: os cuidados com a segurança do novo sistema de pagamento instantâneo criado pelo BC

Novo sistema de pagamento instantâneo desenvolvido pelo Banco Central vai começar a funcionar no dia 16. Nesta quinta (5), na última reportagem da série especial, a Renata Ribeiro e o Eduardo Mendes mostram os desafios do PIX.

O desafio do PIX tem o tamanho do Brasil. Um sistema de pagamentos que tem que dar conta do grande exportador e do pequeno varejo, que vive de grão em grão. O caixa da zona cerealista, no Centro de São Paulo, reflete o apego do brasileiro ao dinheiro vivo.

“Tudo em dinheiro. Se eu vou comprar uma coisa de R$ 1 mil, eu já tiro R$ 1 mil. Se vou comprar de R$ 500, eu tiro R$ 500. Se vou comprar R$ 600… Eu trabalho assim”, conta a feirante Maria Lúcia Gomes.

Quase um terço da população adulta no Brasil não tem conta em banco ou se tem, só usa para receber e sacar recursos: são 45 milhões de pessoas.

“O custo do serviço bancário é ainda relativamente elevado. Então, é obvio que para aqueles que têm um rendimento baixo, pequeno, uma renda mínima, trabalhar com banco é muito caro, primeiro lugar. Em segundo lugar, vem uma tradição de longa data no Brasil de se usar dinheiro vivo. Então, a ‘bancarização’ no Brasil é muito pequena e o PIX é uma oportunidade única para o brasileiro não utilizar o dinheiro”, diz Simão Silber, professor da FEA-USP.

O Banco Central conhece o terreno onde plantou os alicerces do projeto de modernização do sistema: 60% dos pagamentos no Brasil ainda são feitos com dinheiro em espécie. O transporte de cédulas pelo país custa aos bancos R$ 10 bilhões por ano.

“E olha que nesses R$ 10 bilhões não estão contabilizados aqui os custos de segurança ou das próprias agências bancárias. É simplesmente o custo de logística e distribuição desse dinheiro. Reduzir a quantidade de cédulas em circulação na ordem de 30% em um horizonte de 5 a 7 anos: essa ambição é bastante factível, é bastante positiva”, afirma Leandro Vilain, diretor-executivo de Inovação, Produtos e Serviços Bancários da Febraban.

Todo esse papel em circulação é explicado também por fatos que fogem à estatística.

É quando a história do sistema financeiro ganha trilha de filme policial.

“Tem uma parte das transações que não podem deixar rastros, que são ilegais. A grande corrupção é prostituição, lavagem de dinheiro, contrabando de drogas, contrabando de armamento. Portanto, uma moeda virtual tem uma vantagem adicional: ela vai coibir, vai dificultar, ela não vai acabar… O mundo não é perfeito, mas ela vai dificultar brutalmente atividades ilegais”, explica Silber.

“O PIX é um instrumento eletrônico que permite a rastreabilidade assim como todos os demais instrumentos hoje eletrônicos. Assim como a TED, assim como o DOC, assim como o boleto, assim como os pagamentos por cartão – seja cartão de crédito, seja cartão de débito”, afirma Carlos Brandt, chefe-ajunto do departamento de competição e estrutura do mercado financeiro do Banco Central.

Mas é do que não conhece que o brasileiro mais tem medo. “Tenho medo assim, de golpe. Existem vários. Então até quem tem… Assim, mexe muito com tecnologia e tudo às vezes cai. E eu, como não mexo muito, prefiro não me arriscar”, conta a dona de casa Nete Felix.

Não é à toa. Os números de crimes cibernéticos mostram que o Brasil é um país perigoso também no território digital. “Níveis de fraudes bancários são muito elevados no Brasil, comparado até com América Latina. Todos meios de pagamento têm fraudes”, afirma João Miguel Bragança, consultor da Roland Berger.

Já no cadastramento, golpistas usaram o interesse pelo PIX para mandar e-mails com links falsos. Pediam dados do cliente. Os técnicos do BC sabiam que o novo sistema não podia ser um simples aplicativo. O PIX teria de estar protegido por uma fortaleza: todo sistema de segurança dos bancos.

“Desde a concepção do projeto, a segurança foi um pilar fundamental. Nós usamos os melhores componentes de segurança que já estão implantados no sistema de pagamento brasileiro, buscamos experiências internacionais para nos proteger de ataques que outros sistemas de pagamento instantâneo sofreram mundo afora, e ainda dialogamos muito com o mercado para introduzir soluções típicas de segurança”, explica Caio Loureiro Fernandes, responsável pela área de infraestrutura e segurança do Banco Central.

Os especialistas explicam que o sistema tem várias camadas de segurança. A primeira porta é a do banco. Só se entra depois que o site certifica que você é você mesmo. Dentro desse ambiente digital cercado pelas grades de segurança tecnológica do banco, a pessoa acessa a área do PIX, uma segunda porta protegida também pela autoridade monetária. Tudo o que acontece ali dentro é criptografado, transformado em cifras e códigos. Quando se aperta a tecla “enviar pagamento do PIX”, só a pessoa, o seu banco e o Banco Central devem entender.

A infraestrutura é como um grande cofre que não guarda uma nota de real, mas tranca a sete chaves a troca de dados entre as instituições financeiras, o Banco Central e os clientes. O tesouro que o PIX não pode perder é a confiança no sistema de pagamentos.

“Quando a operação entrar em funcionamento, todas as nossas equipes estarão monitorando, estaremos atento aos primeiros movimentos, às primeiras semanas da transação. E, ao sinal de qualquer desvio, nós estaremos atuando fortemente em cima disso. Além disso, o conhecimento acumulado do setor bancário nos deixa tranquilo de que temos hoje as melhores equipes e melhores times monitorando essas transações a todo tempo”, explica Leandro Vilain, diretor-executivo de Inovação, Produtos e Serviços Bancários da Febraban.

A inteligência artificial do PIX vai ser usada a favor da segurança. No caso de transações suspeitas que fogem do perfil da conta, o sistema bloqueia o pagamento por até 30 minutos durante o dia, 60 minutos à noite e rejeita a transação que não for comprovada como segura.

“Tem que tomar cuidado com suas informações. Não deixam em qualquer lugar o celular, que, naturalmente, é a mesma regra para qualquer meio de pagamento que você vai utilizar no seu celular”, diz Ivan Habe, diretor-executivo de serviços financeiros da consultoria E&Y para a América Latina.

“É muito importante ter um cuidado aqui de não clicar no link não conhecido, não clicar em nenhum lugar onde não tenho conhecimento se realmente é um link seguro e para garantir que você não vai passar seus dados em um site desconhecido e causar aí o vazamento de informações”, orienta Thiago Saldanha, diretor de tecnologia da Sinqia.

A Maria Lúcia tem medo dela mesma. “Às vezes, com cartão de crédito, se eu passar na loja, eu vou comprar um monte de coisa. Quando chegar em casa, eu vou olhar e dizer não tinha necessidade disso aqui. ”, diz a feirante.

“É muito importante você ter um controle e manter um acompanhamento do saldo da sua conta porque como a gente vai poder fazer pagamentos mais fácil também vai ficar mais fácil de perder o controle dos nossos gastos. Então, é muito importante que a gente adote sim essa tecnologia, mas a gente precisa também está acompanhando essas saídas da nossa conta. Para conseguir fechar um mês no positivo”, explica a economista Gabriela Mendes Chaves.

Contar até dez antes de comprar: etiqueta para um mundo de pagamento instantâneo, de distâncias mais curtas, onde a roda da economia gira depressa. Tem o passado, o presente e o PIX.

“Eu diria para a sociedade brasileira que é um avanço fantástico nós caminharmos a partir de novembro para o PIX”, diz Simão Silber, professor da FEA-USP.

Fonte: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2020/11/05/pix-os-cuidados-com-a-seguranca-do-novo-sistema-de-pagamento-instantaneo-criado-pelo-bc.ghtml