O cabo da Polícia Militar, Gerson Ferreira Gouveia Júnior, afirmou que alguns telefones acabaram sendo interceptados em razão de erros nos pedidos de grampos encaminhados à Justiça.

 

A declaração foi feita na tarde de terça-feira (6), durante depoimento no Comando Geral da PM. No interrogatório, ele negou que as quebras de sigilo tenham sido feitas de modo irregular.

 

Gerson Ferreira é acusado de ser o responsável por formalizar pedidos, prorrogações e relatórios de inteligência dos grampos militares ilegais à Justiça. Ele está detido na sede da Ronda Ostensiva Tático Metropolitana (Rotam) desde 23 de maio, após o juiz Marcos Faleiros da Silva, da Vara Especializada em Crimes Militares da Capital, decretar a prisão preventiva militar dele.

 

Além do cabo, o ex-comandante-geral da PM, coronel Zaqueu Barbosa, acusado de ser o mandante dos pedidos ilegais, também foi preso. Na tarde de terça-feira, Ferreira foi interrogado no Comando Geral da PM, em Cuiabá, pelo coronel Jorge Catarino Morais Ribeiro, responsável por conduzir o inquérito policial militar sobre o caso.

 

Durante o depoimento, o cabo justificou que o telefone da deputada estadual Janaína Riva (PMDB) estava entre os interceptados em razão de uma falha no DDD inserido na lista. Segundo ele, “Janair”, nome no qual constava o número da parlamentar, seria um dos alvos da investigação da Polícia Militar.

 

Porém, o número correto teria o DDD 66, mas foi inserido na lista como 65 e, desta forma, o número da peemedebista acabou sendo interceptado. Conforme o cabo, outro número grampeado de modo errôneo foi o do desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, José Ferreira Leite.

 

O PM disse ao coronel Jorge Catarino que o telefone pertencente a Ferreira Leite foi interceptado após um número ser trocado no momento de incluir os dígitos para os quais seriam solicitadas as quebras de sigilo. “Houve a diferença de um digito no telefone”, justificou.

 

De acordo com Gerson Ferreira, o número que deveria ser interceptado seria um dos que supostamente pertenciam a Tatiana Sangalli Padilha, publicitária e ex-amante do ex-secretário-chefe da Casa Civil, Paulo Taques. Porém, a suposta diferença de um digito teria feito com que o desembargador aposentado fosse interceptado.

 

Em relação a Tatiana Sangalli, o cabo afirmou que a publicitária era realmente alvo das interceptações e pontuou que os números pertencentes a ela, que constam na lista de grampos, foram inseridos em razão de suposta prática ilícita dela. “Ela era investigada por ser uma pessoa que trazia material ilícito para Cuiabá, por isso alguns telefones dela foram grampeados”, argumentou ao Jorge Catarino.

 

Ele ainda comentou que o jornalista José Marcondes Muvuca também teria sido alvo de investigação e seus telefones teriam sido interceptados de modo regular. “Existia a suspeita de ele ser traficante, por causa da grande quantidade de droga que ele consumia, por isso foi alvo de investigação”, alegou.

 

Sobre o fato de uma major do Gaeco ter sido grampeada também, Gouveia explicou que houve uma falha. Ele argumentou que conversava bastante com a oficial e acabou incluindo o telefone nos pedidos à Justiça, devido ao costume.

 

Ainda em depoimento ao coronel Jorge Catarino, o cabo Gerson Ferreira confirmou ter sido o responsável por alugar duas salas no edifício Master Center, na rua Desembargador Ferreira Mendes, nas proximidades do morro da Caixa D´Água, em Cuiabá. No local, teriam sido realizadas as interceptações telefônicas ilegais, conforme depoimento da sargento Andréa Pereira de Moura Cardoso à Corregedoria da PM. Ela assumiu ter atuado nas quebras de sigilo irregulares.

 

O cabo explicou que alugou uma sala no primeiro andar do prédio, em agosto de 2014 . Ele disse que posteriormente, em fevereiro de 2015, se mudou para o sexto andar do mesmo edifício. Ferreira confirmou que nos locais eram realizadas interceptações telefônicas, porém negou qualquer irregularidade na prática.

 

“Eu aluguei as salas para fazer com que elas fossem meus pontos de estudo. Mas quando surgiram as investigações que envolviam interceptações telefônicas, sugeri, por questão de segurança, privacidade e sigilo, que fosse instalada uma central de escutas no apartamento”, justificou ao coronel.

 

De acordo com Ferreira, o primeiro equipamento utilizado para realizar a prática foi a plataforma Wytron, que é usada para as interceptações telefônicas. O equipamento consta na denúncia encaminhada pelo promotor de Justiça Mauro Zaque à Procuradoria Geral da República (PGR), sobre as supostas quebras de sigilo ilegais. No documento, Zaque afirmou que a plataforma teria sido adquirida pelo chefe da Casa Militar de Mato Grosso, coronel Evandro Alexandre Ferraz Lesco.

 

Conforme depoimento da sargento Andréa, no Wryton eram utilizados computadores completos, que eram divididos em dois quartos, e fones de ouvido. Havia também cerca de 15 celulares acoplados e um notebook.

 

Posteriormente, o cabo da PM revelou que foi adquirido o um sistema denominado Sentinela, para realizar as interceptações. O equipamento teria sido comprado pelo próprio Ferreira, que assumiu ter pedido dinheiro emprestado ao coronel Lesco para adquirir o sistema.

 

No interrogatório, o militar negou que o Grupo de Atuação e Combate ao Crime Organizado (Gaeco), onde atuava na época em que solicitou as interceptações, tivesse conhecimento sobre os grampos que eram feitos no edifício Master Center. Ele garantiu que membros do grupo nunca atuaram nas quebras de sigilo que ele solicitava.

 

Grampos ilegais

 

Segundo a denúncia encaminhada por Mauro Zaque à PGR, as interceptações telefônicas feitas por membros da Polícia Militar e por outros membros do alto escalão do Executivo estadual eram ilegais. Diversas figuras do Estado foram interceptadas ilegalmente desde 2014. Teriam sido alvos da irregularidade políticos com mandatos, assessores, advogados, jornalistas, policiais, entre outros.

 

A denúncia aponta que os grampos eram concedidos por meio do esquema de “barriga de aluguel”, no qual o Núcleo de Inteligência da Polícia Militar solicitava interceptações de eventuais criminosos – no caso, uma quadrilha de tráfico de drogas e, posteriormente de assaltantes – e incluía os nomes de outros alvos, que não tinham relação com os crimes.

 

Na denúncia encaminhada por Zaque, é relatado que os grampos eram solicitados a um juiz de Cáceres pelo Ministério Público Estadual, com base em pedidos da Inteligência da PM. No entanto, outros magistrados do Estado também teriam concedido quebras de sigilo ilegais, sem perceber que entre eles havia terminais sem relação com o crime.

 

De acordo com informações de bastidores, entre os membros do alto escalão do Executivo Estadual, que estariam envolvidos no esquema das interceptações ilegais, está o ex-secretário-chefe da Casa Civil, Paulo Taques. Ele é apontado como um dos líderes dos pedidos irregulares de quebra de sigilos. No entanto, o advogado nega qualquer participação na fraude.

 

O esquema gerou repercussão nacional e foi alvo de reportagem do programa “Fantástico”, da Rede Globo. O caso gerou imbróglios políticos. Logo que a situação veio à tona, Paulo Taques deixou o cargo de secretário-chefe da Casa Civil. Apesar de as notícias apontarem que o primo pudesse estar ligado ao esquema, o governador Pedro Taques (PSDB) afirmou que o ex-membro de seu staff deixou a função para voltar à advocacia.

 

O ex-secretário tornou-se o responsável pela defesa do chefe do Executivo Estadual no caso das interceptações telefônicas criminosas.

 

Na denúncia encaminhada por Zaque, o promotor de Justiça afirmou que Taques cometeu o crime de prevaricação, por saber do esquema criminoso e não fazer nada para impedi-lo. O governador, porém, negou que soubesse das escutas ilegais que eram autorizadas na comarca de Cáceres.

 

Em 16 de maio, o tucano protocolou denúncia contra Zaque no Ministério Público Estadual, na PGR e no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Nos documentos, o chefe do Executivo estadual acusou o promotor de cometer os crimes de falsificação de documento público, prevaricação, em razão de ter deixado de praticar ato de ofício, e denunciação caluniosa.

 

Fonte: http://www.midianews.com.br